domingo, 27 de julho de 2008

O TRAVESSEIRO E O LENÇO - por Maria Eugênia


Nove horas da noite. Lá vem ele chegando. Entra em casa lentamente como se obedecesse a um ritual. Fecha a porta da rua. Agora passa a chave na fechadura que range emitindo um som rouco, talvez pelos muitos anos em que não fora preciso trancar. Com os novos tempos... Com as notícias que escuta, precaver-se é melhor... Pensa em passar óleo na fechadura pela manhã.
Caminha até à cozinha, acende a lâmpada que pende do teto num fio esgarçado, que de tão velha, projeta mais sombra e penumbra, do que claridade. Mas que importa? Ele conhece tão bem cada palmo daquele lugar... Sua história se mistura a cada objeto... Tudo tão familiar, que até no escuro, saberia encontrar o que necessita.
Começa a passar um café... Contempla a mesa antiga e as quatro cadeiras... Quem se sentará para trocar conversa, amenizar a solidão, bebericar o café?
Já faz tanto tempo que não se ouve barulho naquele lugar... Já faz tempo que ninguém se senta à mesa e ocupa as cadeiras e o coração solitário... Pensa um pouco naqueles que passaram por ali... Mas pensa tão rápido, lembrança de segundos, para não dar lugar a nenhum sentimento...
Apaga a luz e vagarosamente vai fechando as janelas... Usa o banheiro...
Entra em seu quarto. Não precisa de luz, pois a claridade de um poste da rua clareia o ambiente pelas frestas da janela... O pijama dobrado no mesmo lugar... O travesseiro de penas para repousar a cabeça.
Deita-se, puxa as cobertas... Faz uma oração. Coloca a mão embaixo do travesseiro e pega a fotografia, a única que sobrou com todos os que já moraram ali, nos tempos de alegria.
Pega também o lenço para enxugar uma fininha lágrima que ainda teima em escorrer... Suas únicas companhias...

Maria Eugenia
23/07/2008

11 comentários:

BLOG DO ZÉ ROBERTO disse...

A nossa querida Marô escreve com a alma e o coração e tem nos encantado de uma forma incrivel. Textos primorosos, irretocáveis e de uma sensibilidade ímpar. Poder ler essa escritora, é absorver a essência da escrita na sua mais plena forma. Não só me encanto com ela, como principalmente aprendo cada dia mais um pouquinho do que é essa maravilhosa arte de escrever. Beijos Marô, amei seu texto por demais!

Marô disse...

Obrigada Zé!!!Você é formidável!!!

Moniquinha disse...

Maravilhoso! Em tão poucas linhas, vc nos comove com uma crônica cheia de sentimento e lirismo. Linda Marô, suave nas palavras tão bem escolhidas, e forte nos sentimentos que permeiam estas linhas.
beijos minha linda!

Dorival disse...

Maira Eugenia, minha irmã. Amei sua crônica! Trouxe-me belas recordações. Confesso que voltei no tempo... Parabéns! Linda! a forma como descreve os detalhes. Imcomparável!

Malu Sant'Anna disse...

Um personagem sem face, apenas lembranças. Crônica primorosa, ainda que triste. Uma leitura muito gostosa, que vai te levando, como se tu fosses mesmo repousar a cabeça no travesseiro... Lindo, Marô!

Marô disse...

Agradeço muito a gentileza dos comentários da Moniquinha, Dorival e Malu...bjxxx

Marô disse...

Agradeço muito a gentileza dos comentários da Moniquinha, Dorival e Malu...bjxxx

Basilina disse...

Bela cr�nica. Prova viva de que nem s� por interm�dio da poesia consegue-se expressar o sentimento.
Est�o presentes detalhes filtrados sob a �tica de um observador sens�vel e po�tico. Parab�ns Mar�.

Rosana Lazzar disse...

Eu já havia lido este "pequeno livro saudoso" da Marô...é algo tão bem detalhado e tão absurdamente real, que encarnamos a personagem...avistamos alguém a pensar em por óleo na fechadura...é perfeito! Arrasador!
Mais uma vez: Parabéns Marô!

Marô disse...

Agradeço muito os comentários...Obrigada!

Agela disse...

Marô que lindo! Sua sensibilidade me contagia... texto triste, suave e doce. Parabéns querida!

Feliz novo ano!

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Nossa mensagem de Natal

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