sábado, 23 de outubro de 2010
"C'est la vie"
Não que haja um desejo real em desfazer-se do corpo, ou das penas e dos pesos de se estar vivo, mas uma necessidade tão grande e gritante de fechar-se o todo em copas e ser nada mais do que um vulto passado. Deixar-se encerrar sem que as contas sejam feitas, os pesos medidos e as arestas aparadas.
Ser apenas mais um sopro, que cessou num suspiro último de alívio, ou de dor.
Há dias, em que morrer é mera questão de cerrar os olhos pois que a alma já fenece enquanto os dias correm e as noites se deitam sobre o corpo cansado.
Mas quão difícil se faz cerrar os olhos quando o corpo, ainda que abatido, insiste em pulsar.
Monica San
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Presa
Queria que teus olhos fossem menos pontiagudos. Que não me trespassassem assim, como se minha carne não oferecesse resistência alguma ao teu sal e ao vinagre da tua saliva. Dispões das minhas partes como a preparar o teu banquete, mas limita-se a degustar lentamente como se teu apetite ainda estivesse morno.Ainda sangro.
Enquanto afias teus caninos em outros ossos, de presas já devoradas, por certo mais saborosas ou mais "ao ponto" que eu.
Ainda sangro.
Enquanto me preparas, a fogo lento, para adornar a tua mesa e fazer parte do teu banquete.
Ainda sangro ao sentir o teu apetite e imaginar a força dos teus dentes, mas agora, meu sangue é a lava que escorre do teu vulcão em chamas, quando me chamas para saciar a tua fome.
Entre teus dentes encontro meu ponto.
E meu sangue escorre, quente, pelos cantos da tua boca.
Monica San
terça-feira, 21 de julho de 2009
Em silêncio
Em silêncio
engoli o ar
estanquei o riso
apaguei o sol do meio dia
e mergulhei no teu silêncio
anoiteci a braçadas
sob tuas ondas que ecoavam
e aquebrantavam meu corpo
semi-morto
não havia gritos, gemidos, nem urros
nem vida mais havia
só a maresia
que acalentava teu corpo cansado.
Monica San
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Rio manso
Sabe aquela despedida? Não era um adeus, era apenas um até breve, um até mais. Não haviam motivos pras lágrimas, mas elas rolaram. Insistiram em dar o ar da graça.
Não eram lágrimas de tristeza, pois há muito que tua companhia não me permite momentos tristes. Nem eram lágrimas de decepção, teu amor nunca me decepciona. Nem eram lágrimas de medo, pois teus longos braços não me deixam sentí-lo.
Eram lágrimas de saudades antecipadas, lágrimas de uma breve solidão, lágrimas da ausência tua que não me cabe mais.
Eu sabia que havia a certeza do reencontro, com beijo sabor saudades, daqueles que sempre começam na hora certa e sempre terminam antes, deixando gosto de quero mais. Com direito à olhares lânguidos, carícias exageradas, mordiscadas de vingança pela demora, euforia e alegria extremas afirmando um sentimento além fronteiras.
Tempo e espaço incapazes e insuficientes contra tanto desejo.
Mas chorei.
Não foi um choro melancólico e bucólico, do tipo dramático. Nem foi um choro desesperado e alucinado, do tipo incontrolável.
Foi um choro de rio manso, de rio que não corre mas desfila exuberante rumo à grande e vertiginosa queda de águas claras e volumosas, e deságua forte e torrencial lavando e arrastando tudo quanto encontra pelo caminho.
Um choro que lava a alma, que fortalece, que só faz mais certa ainda a alegria do reencontro.
Chorei e adormeci feliz.
Feliz, porque sabia que passados alguns dias, minhas lágrimas seriam enxugadas por teus lábios sedentos de mim.
Adormeci, como sempre, nos teus longos braços e debaixo do teu olhar atento e apaixonado que jamais me abandona.
Moniquinha
segunda-feira, 21 de julho de 2008

O tempo é escasso e as horas são vazias
há tanto o que fazer...e o tempo passa
O tempo é escasso e as horas são vazias
As areias da ampulheta escorrem aos olhos
O tudo se amontoa...e o tempo voa
nas horas vazias o nada me impregna
O tempo é escasso e as horas são vazias
Os ponteiros do relógio nunca param
Há tanto o que fazer...e o tempo passa
Sinto-me cheia, plena, abarrotada...do nada
O tempo é escasso...mas as horas...
as horas são tão vazias!
A vida urge, o mundo urge, o amor urge!
Tanto, tanto a fazer...e o tempo...passa...
E as horas são vazias...e o tempo é escasso...
e a areia escorre...e o nada se amontoa
e eu me sinto cheia...de tudo e de nada!
Mas a vida urge...
E o tempo voa...
E o nada, e o tudo, e as horas
Passam!
Eu...passarinho!
(Que o mestre Quintana perdoe minha ousadia)
Moniquinha
terça-feira, 18 de março de 2008
Desabo
móveis sendo arrastados, trovejando
tem gorjeios de alegria, banho do dia
tem dança de verdes, ao som dessa melodia
Tem eu aqui, presa pela dicotomia da vida
Livre sem o ser, presa sem amarras
o cheiro no ar me chama a ser, atrevida
a vida reta me breca e me faz contida
Assentada sobre meus pensamentos
sinto-me de braços abertos ao vento
sendo banhada pela chuva abençoada
renovando em mim nobres sentimentos
O amor à vida, aos seus intentos
o respeito ao tempo, imponente, implacável
a compreensão do sofrimento, essa dor palpável
o valor do amor, santo remédio curador
Rendo-me às corredeiras, verto cristais de sal
imito a chuva , e desabo, torrencial!
Moniquinha
Feliz novo ano!
Nossa mensagem de Natal



